terça-feira, 24 de outubro de 2006

Nó de forca

Parado em pé, com as mãos cruzadas atrás da cintura, sentia um pingo de suor fazendo-lhe cócegas ao lado do olho esquerdo, mas não podia levantar os braços. Com lágrimas corpulentas e soluços descontrolados, sua mãe não conseguia esconder o desespero por perdê-lo assim, tão novo, e tirava dele o centro das atenções. O nó apertado no pescoço e o padre ansioso à espera do algoz lhes faziam pesar ainda mais a culpa, que até então não havia aparecido de forma tão sólida. Naquele momento, já não havia idéia mirabolante que pudesse tirá-lo da forca.

Entorpecido pelas tantas reviravoltas que sua vida dera nos últimos cinco meses, torcia com toda a força para o acontecimento de apenas mais uma: que a noiva não chegasse. Apesar de muito ciente da impontualidade dela, havia um fiozinho de esperança de que o atraso fosse definitivo. Carro roubado, rasgo no vestido, atentado, assalto, qualquer coisa servia naquela hora.

Os padrinhos, em meia-lua no altar, formavam dois grupos de expressões distintas. Do lado esquerdo, os sorridentes alisavam a barriga orgulhosos de dar cabo à última solteira feia da família dos Moratti. À direita, os Bezerra não se atreviam a fazer cara de contentes. Amparando a mãe, os amigos do noivo não se davam ao trabalho de esconder a contrariedade, e só haviam aceitado o convite por saber que o pai se esforçara por mais de três semanas, mas não conseguira demovê-lo da idéia. Não havia outro caminho que não fosse subir no altar.

A verdade é que Marquinhos se movia pelo medo, e a braveza do sogro superara a do pai. No momento em que Miriane voltou do banheiro segurando na ponta dos dedos a pequena fita branca de papel pintada de azul, em poucos segundos um tufão devastou a vidinha de final de adolescência. Arrancou os CDs da prateleira, despregou os pôsteres da parede, varreu as revistinhas de violão, desfolhou as apostilas do cursinho, levou para sempre os amigos da cervejada. Agora, tudo o que conseguia ver eram os bigodes grossos de Aristeu, gritando: "Engravidou, tem que casar!"

E não foi muito diferente. O que ele não havia previsto era a empolgação da família da menina. Em uma semana já tinham planejado o bifê, os eletrodomésticos da casa nova, o hospital em que nasceria o bebê e tudo mais o que se pudesse arrancar dos avós paternos, que imploravam para que o filho entendesse que gravidez, naquela época, já não era mais sinônimo de casamento.

Durante quatro meses e meio, o casal peregrinou por shoppings, lojas de móveis, decoradores, ourives, até chegar o momento que Miriane mais esperava: o alfaiate.

Descalça sobre o banquinho, exibia orgulhosa a medida das curvas que enlouqueceram Marquinhos e os fizeram transar sem camisinha aos dois meses de namoro. Foi assim, no passa fita daqui, prega dali, mede acolá, que a menina perdeu o equilíbrio, e Vítor Marcelo – ou Vitória Marcelle, como torcia a mãe – forçou a reunião das famílias a duas semanas do casamento, numa cerimônia de enterro.

E se a fitinha do teste de gravidez levara dele os sonhos da juventude, os torrões de solo vermelho chocando-se contra o branco do caixãozinho faziam-no velho de vez, enterrando ali o pouquinho de vida que o futuro lhe reservava.

Quinze dias depois, ao pé do altar, o gogó enroscava no nó da gravata no momento em que o menino olhava para a mãe, desconsolada. As mãos dos músicos sobre as trombetas começavam a suar, esperando a noiva atrasada, e um burburinho chacoalhava os quadros da via sacra pendurados na catedral.

Na espera que se esticava, as crianças se ouriçavam, despenteando o cabelo que as mães carinhosamente haviam alinhado. Um moleque baixinho, desses na idade dos porquês, não agüentava mais ficar sentado. Na sua inquietude, saiu desbravando os cantos da igreja. Foi assim que encontrou uma portinha aberta, como a de um banheiro, e depois da porta, uma corda pendurada.

A badalada inesperada do sino disparou o coração de Marquinhos. Num lampejo atlético, suas pernas seguiram o coração, e dispararam também, atravessando velozes o tapete vermelho que cruzava a multidão. Em passadas ofegantes, o noivo quebrava o compromisso que o unia às centenas de convidados levados por Aristeu.

As cabeças todas viraram afoitas para a porta, por onde o menino desaparecia, enquanto um leve esboço de sorriso se fazia sob a maquiagem que escorria no rosto da mãe.

domingo, 6 de agosto de 2006

No tombo do cedro

Com grande esforço, colocava meia dúzia de pertences dentro da mala pequena. Alguns documentos, fotos, toalha. Não levaria praticamente nada. Ficariam para trás um guarda-roupa cheio, muitos livros e aparelhos eletrônicos.

Ela sentava no canto do quarto. Observava-o imóvel, tentando trocar um olhar, que não vinha. Um muro invisível os separava. Ainda que não tivessem conversado, sentia que aqueles poucos gestos poderiam ser os últimos, e continha sua habitual agitação e manifestações de afeto.

Fazia cinco dias que ele não ia mais para o trabalho. As lixeiras da casa estavam quase todas cheias, enquanto a dispensa transbordava comida enlatada e sacos de arroz. Ela queria pedir explicações, saber o porquê de suas dobras na testa, das sobrancelhas pendentes, da pilha de garrafas de vodca vazias na garagem, mas as palavras não surgiam na hora de falar.

Com uma bola de tênis entalada na garganta, ele se esforçava para não explodir em prantos. A dor por não levar nada da vida que demorara tanto para construir não necessitava de um adendo. Além disso, pobre coitada. Que os últimos momentos fossem, pelo menos, serenos.

Por que a abandonava? Ela, que sempre estivera ao seu lado, todos os dias ali no portão, despedindo-se e esperando-o, não merecia ser deixada assim, sem mais delongas. Viviam juntos havia quatro anos, sem nunca uma pendencinha sequer ter arranhado o carinho que nutriam. Seria seu jeito atrapalhado, de nunca conseguir ter dito que gostava tanto dele? Seria largada ali, sem seu único conforto na vida, que era o afagar de suas mãos de homem?

Não, não era por falta de querê-la. De tudo o que deixava, ela era o que mais lhe faltaria. Seu desejo maior, naquela hora, era o de poder encontrar alguém que a amasse mais do que ele amara. Não a deixava por vontade. Era questão de sobrevivência, e não podia levá-la consigo.

A mala estava quase cheia. Como se levantasse um botijão de gás, ele pegou o vidrinho de antidepressivos e acomodou ao lado das passagens e do passaporte. Trancou os fechos e levantou-se.

Ela ergueu a cabeça e sentiu que era o instante de exigir-lhe explicações. Parou em frente à porta obstruindo a passagem, e olhou suplicante.

Ele se abaixou, pousou a mão sobre sua cabeça e beijou-lhe o pêlo marrom.

– Fica bem, Laika.

Pela primeira vez, saiu deixando o portão aberto. Sem ter coragem de olhar para trás, bateu a porta do táxi, que arrancou cantando os pneus, temeroso por transformar-se em alvo de mais um míssil de Israel.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2006

Grávida de palavras

Estava grávida de palavras. Sentia que estavam já quase saindo de suas entranhas, perto do momento de parir. Andava inquieta pelos cantos, a mexer no cabelo, cutucar as unhas, beliscar pedaços de queijo e toucinho na geladeira. Quando mais comia, sentia que as palavras tentavam devorar o alimento que colocava goela abaixo, e se empanturrava mais, estufando a barriga pequena, já farta de guloseimas e de letras em formação.

Não sabia ainda se seria um livro, poema, romance, manifesto ou até mesmo um bilhete. As contrações vinham fortes, mas não chegava a hora de botar as criaturas para fora. Seriam gêmeas? Trigêmeas? Poligêmeas idênticas? Era difícil medir o grau de irmandade de palavras.

Tinha certeza, apenas, de que não seriam fracas. Junto delas havia gestado um pouco de indignação, de idéias contidas, de frases inacabadas e vontades de gritar. Certa vez, sua revolta crescera tanto que pegou uma faca e colocou o metal afiado sobre o pulso, brincando de cortar a pequena linha que separa a vida da morte.

Surgiu outra solução. Em vez de derramar sangue sobre o assoalho por culpa de idéias controversas, resolveu derramar tinta azul sobre papéis, e desde então engravidou-se de palavras.

Se tinham pai? Tinham vários, mas ela não tinha certeza de quem realmente era. Poderia ser a escola, que sempre reprimira sua vontade de se manifestar, ou os pais, que não a entendiam, por mais que se esforçassem. Mas ela acreditava, mesmo, que era produção independente. Nessa época de clones, DNA e o escambau, já não era tão estranho que os filhos nascessem só de mãe.

A parteira poderia ser a velha e boa caneta, uma máquina de escrever antiga que o avô abandonara empoeirada num canto, ou até mesmo as teclas tecnológicas do laptop. O importante é que nascessem em um ambiente limpo, livre de interferências do telefone, dos futuros tios ou da luz excessiva que entrava pelas janelas naquele verão de aquecimento global.

Não se preocupava muito com a criação. Nasceriam fortes, direitas. Algumas correçõezinhas aqui e ali resolveriam qualquer qüiproquó. Atentava-se apenas para o rumo que poderiam tomar. Se fossem demasiado revoltosas, trariam complicações à mãe, certamente.

Nove meses não seriam necessários. Gestação de palavras não se faz assim, de lei biológica. Algumas nascem quase cuspidas, no quente da emoção. Outras necessitam muito tempo para conseguir se livrar do útero, e há ainda as que se prendem à mãe como canguru, se protegendo do mundo alheio enquanto não se fortalecem por completo.

E foi assim, de tanto cuidar da beleza e dos finos dotes que desejava imprimir às novas criaturinhas, que acabou por perdê-las. Nasceram feias, tortas, despejadas em um caderno azul que deixara ao lado da cama numa daquelas noites de calor suado.

Rejeitadas pela mãe, que não conseguiu realizar nelas seus desejos, foram abandonadas em uma lata de lixo na esquina. Meses depois, a menina viu na TV o fantástico caso do mendigo que se tornara fabuloso escritor.

quarta-feira, 24 de agosto de 2005

Tamagochi

Já era a quarta vez que a mãe batia na porta do quarto, mas ele não respondia. Com a testa apoiada no vidro da janela, tenvava chorar vendo as gotas de chuva escorrerem pela vidraça.

De uma hora para outra, não gostava mais dos objetos do quarto. Olhava o abajur imaginando espatifá-lo sobre as fotos de criança, varrendo a estantezinha dos carrinhos de fricção e o pote de bolinhas de gude, que ainda guardava. Tudo parecia ridículo perto do que sentia. Esfregava os olhos, fazia caretas, e apenas seu estômago parecia querer chorar, esparramando o suco corrosivo pelas entranhas, queimando-o de dor.

As imagens teimavam em persegui-lo, e se repetiam em flashes. O ônibus, a serra, a garoa fina, os ferros retorcidos e o vestido azul sobre a maca, a cor que escolheram para o encontro no terminal Tietê. Não, não era a Régis esburacada, pois sempre fora. Sábados chuvosos também não são incomuns, e motoristas imprudentes qualquer rodovia tem.

Fora ele quem insistira para Daniela vir. Ela hesitou durante meses. Tinha que driblar os pais, arrumar uma desculpa mirabolante, juntar dinheiro e, além de tudo, só poderia ir no sábado e voltar no domingo. E olha que a viagem de Curitiba para lá consumiria pelo menos umas sete horas.

Mas já era hora de vê-la. Fazia exatamente um ano e meio que se conheceram em uma sala de bate papo. Foram meses trocando mensagens todos os dias até ela mandar a primeira foto. Não era do tipo que qualquer um achasse linda. Baixinha, tinha olhos pequenos, pele branquinha, bochechas rosadas e o mesmo cabelo vermelho que viu se confundindo às faixas sanguentas que enrolavam a inerte menina na maca.

Como tudo o que se perde, sabia agora o quanto lhe valia. Gostava dela. Era a única pessoa que entendia suas lamúrias de adolescente, que não o julgava anti-social, a quem podia contar todos seus segredos e medos. Gostava até mais que dos amigos do colégio, que o apelidaram de Tamagochi, o bichinho virtual, depois de descobrirem seu interesse pela menina da internet.

Tudo bem, naquele sábado tiraria a desforra. Iria tocar na apresentação de sua banda na escola. Nunca o viram acompanhado, e não perderiam por esperar. Chegaria de mãos dadas, de gel no cabelo e um sorriso satisfeito. Queria ver quem lhe chamaria de Tamagochi!

Mas inventou de ligar a TV para apartar a ansiedade, e deu de cara com o jornal impiedoso, de ônibus virado e letras brancas no fundo vermelho: "Acidente na Régis Bitterncourt fere 25 e mata menina de 16".

É claro que não poderia ser. O vestido era o combinado, os cabelos iguais aos das fotos, a estrada era a mesma, o celular não atendia, mas era real demais para acreditar. Bastava manter a calma, e tudo iria dar certo. Não poderia ser.

Com mãos trêmulas e sorriso pálido, despedira-se da mãe e fora até o terminal no horário combinado. De longe viu o tumulto de parentes na plataforma, e a cotoveladas conseguiu ver com os próprios olhos o que ainda não podia crer. O ônibus acidentado partira no horário em que ela disse que sairia. A atendente da viação, percebendo o espanto angustiante em seu rosto, perguntou delicada se ele conhecia a menina que falecera. Não, ainda não conhecia.

Desde então estava ali trancado, tentando expurgar por meio de lágrimas um pouco da dor que prometia esconder, mas não conseguia. A inaptidão para chorar, motivo de orgulho quando criança, agora se traduzia em dores de cabeça, vertigens, azias e pontadas no estômago.

Assim foi durante dias e dias. Não teve coragem de ligar para a casa dela, nem de acompanhar o desenrolar da tragédia pela televisão. Não falava com os amigos nem com a mãe, e não ousou sequer chegar perto do computador. Sabia que quando o ligasse todas as marcas dela estariam lá, desrespeitosas pela morte. O catálogo de endereços, as fotos, a carinha no MSN.

Foi apenas depois de dois meses que tomou coragem e ligou máquina. Trabalho de escola, não tinha como não fazer. Mas antes de apertar o primeiro botão, tomou a decisão: não faria um velório virtual. Já sofrera o suficiente, segurando sozinho aquela morte pela TV, e apagar um por um os rastros de Daniela seria remexer uma dor que aos poucos já se dissipava.

Devagar, fazia a vida ir voltando aos eixos. Tentava preencher as noites de bate-papo com ensaios na guitarra, agora sua melhor e única amiga. O estômago calara-se, a cabeça já não doía, e ele conseguia passar horas sem ter que lembrar.

Sentia falta mesmo era dos conselhos, das risadas em conjunto. Pelo menos, agora já acreditava que o peso da fatalidade não era somente dele. Havia poucas chances de algo dar tão errado, mas deu. E ele que ficou, teria que continuar.

Foi quando naquela tarde algo estranho aconteceu. Com a mesma foto da sexta-feira, a da última conversa, uma janela piscou no canto direito da tela do seu computador. "Vc taih?". Como bicho que foge, arrancou o fio da tomada. Afastou a cadeira, e depois de três respiradas a fundo, sobreveio a raiva. Que raios de criatura insensível haveria de fazer uma brincadeira de tremendo mau gosto?

Com os olhos faiscantes, colocou de volta a tomada e foi tirar satisfações com a besta humana que brincava com coisas tão sérias. Mas não estava mais lá. Esperou as estrelas chegarem e o sol voltar, decidido a dar uma tremenda bronca, mas ninguém apareceu.

Alguns dias depois, quando a raiva amainara, apareceu novamente a janelinha. O susto foi quase o mesmo, mas a tomada continuou plugada. "Vc taih?". Ah! Mas ele iria pegar o desgraçado! E resolveu mudar de tática. Se desse bronca, corria o risco de afugentá-lo. Jogo é jogo. Queria ver onde isso iria dar. Com um nó na garganta, mas decidido, começou a responder como se nada tivesse acontecido.

A maneira de conversar era a mesma. Os cás no lugar dos quês, os xises sobre os esses, os tês dobrados e todas as abreviações possíveis, além das caretinhas de pontuação. O desgraçado sabia um pouco dela. Começou a ir mais a fundo, jogando perguntas pessoais. Soube notícias do cachorro, do vizinho chato, dos passeios no Jardim Botânico... De fato, o maldito era de perto. Apelou para intimidades. Desafetos familiares, complexos de magreza, crises de adolescente e até as fantasias sexuais. Era tudo igual. Grande filho da puta!

Só não teve coragem de falar do acidente. Nunca contara a ninguém, e tinha medo estar caindo em armadilhas. Além disso, apesar do mal estar, algum prazer lhe surgia ao conversar com alguém que a conhecia tão bem, e imitava seu jeito com tanta semelhança.

No dia seguinte, voltou da escola inquieto para continuar a conversa. Contou das notas baixas, da eterna distância do pai, do apelido de Tamagochi que tanto o irritava (e que nunca perdera). Desta vez o pegaria. Não era possível que tivesse até mesmo o mesmo jeito de aconselhar, de dizer que as coisas passariam e que um dia ele iria rir de tudo aquilo. Mas tinha, e as palavras eram muito parecidas com a da última conversa.

Por mais que tentasse comprovar sua tese, ele não conseguia. Seria fácil desmascarar o impostor. Bastaria falar do acidente. Mas não o faria. A morte dela morreria com ele.

A guitarra aos poucos voltou a ganhar poeira, e bate-papo desfiava tardes e noites afora. Ainda que soubesse da zombaria baixa que lhe fazia quem estivesse do outro lado, as mesmas palavras e maneiras devolviam um conforto que não imaginava mais ver.

De vez em quando, se pegava esquecido do acidente, dos rasgos no vestido azul tingido de vermelho, pensando estar falando mesmo com ela. E tinha medo de estar começando a variar.

Corriam estações do ano e a idéia de desmascarar o engandador se esvaía. Depois de tanto tempo, se dava ao luxo de ser um pouco feliz. Trocavam segredos, conquistas e lamentações, e quase não sentia falta dos bons tempos de conversa de ano e pouco atrás.

Já era próxima a época de formatura, e chegava a sua vez. Quando recebeu os convites, não conseguia pensar em outra pessoa. Convidaria, ainda que soubesse, não fosse.

Tomou um gole d'água, respirou fundo e foi para o quarto, com medo de repetir a sexta-feira da última vez. Mas esperou horas e mais horas, e ela não veio. Não era comum desaparecer sem lhe contar. Dia seguinte, semana seguinte, mês inteiro, e já chegava perto do baile. Sumira. Apelou para o celular. Não atendia. E-mails perdiam-se sem resposta. Faltando dois dias foi que percebeu: o ícone do MSN sumira. Abriu o Orkut, mas o perfil não estava mais lá. Não encontrava o blog, e nem mesmo no Google conseguia achar algum rastro de existência dela.

Como o menino que deixa escapar a linha da pipa, desta vez pôde chorar com todas as lágrimas a que tinha direito, deixando poças secas de sal no parapeito da janela.

sexta-feira, 8 de julho de 2005

Gotas de vidro

Despertou apenas quando o pneu dianteiro chocou-se contra a guia, chamando a atenção dos passantes na avenida. Não pensou em pegar o volante, tampouco teve tempo de fechar os olhos.

Junto ao baque surdo, o horizonte deu meia volta e os pedriscos do asfalto grasnaram ao riscar a pintura cinza do capô. Um poste metálico aproximou-se violento, e não passou impune pela trajetória embriagada do pequeno carro.

Silêncio absoluto. As pessoas se juntavam curiosas, e ela ainda tentava entender o mosaico esbranquiçado que se formara a poucos centímetros do seu rosto.

Lentamente, um buraco foi se abrindo. Os cubinhos quadrados se descolavam da placa disforme e se misturavam aos cacos dos faróis deixados na calçada.

Despedindo-se, em cada pequeno grão de vidro que se libertava a menina via perder-se um pedacinho de sua vida.

Aqueles três juntinhos eram o sorriso que sua mãe lhe dera ao fechar o portão. O que caíra sobre a sua testa, a paixão que deixara ir embora. Esse grandão, as conversas na escadaria da escola.

Nas borrachas descoladas, as discussões em vão que a afastaram de seu pai. No retrovisor desalinhado, a amiga que lhe emprestara os ombros na última desilusão. Na fumaça quente que se misturava aos pedaços de plástico estilhaçados, a sensação de uma estrada que dava numa porteira fechada.

Vieram luzes vermelhas, faixas, fardas, gritos, olhares chocados repreensivos. Vieram macas, um dois três, mantas térmicas, imobilizadores. Vieram sirenes, guinadas e um jaleco branco.

O som voltou e os contornos pouco-a-pouco retomaram sua nitidez. "Está tudo bem, só fiz um curativo no tornozelo."

No dia seguinte, ao subir no ônibus para voltar ao trabalho que consumira toda a sua noite e a fizera dormir ao volante, seu estômago ficou embrulhado. Lembrou-se da pilha de trabalhos atrasados pra faculdade. E da multa na conta do telefone. E da pressão da família para que arranjasse um tempo para ir à igreja. E do dinheiro que prometeu guardar para comprar o novo guarda-roupa.

Naquele momento, doeu mais a sensação de perder a vida no varejo, como vinha fazendo, do que jogá-la contra um poste em plena Radial Leste.

quarta-feira, 29 de junho de 2005

Ramalhete de flores

Depois que perdeu o ponto na 25 de Março, foi vender flores no farol. Aquele não era um bom dia. Estava frio, chuviscava, e não havia quem se animasse a abriar a janela do carro ou levar a namorada para passear.

Desde manhã, vendera apenas dois macinhos. E olha que já era quase meia-noite. Estava com frio, as pernas bambeavam, mas as dezoito rosas do buquê, bem divididas em pacotinhos de três em cada, já começavam a escurecer nas pontas, e amanhã não prestariam mais.

Além de tudo, tinha o caderno da Leninha. Com o que ganhara naquela semana, só dava para o almoço e a janta, e olhe lá. Já era a segunda vez que a menina falava, e as palavras calaram em seu coração: "Pai, hoje a professora me disse de novo que eu não posso ir mais na escola sem caderno."

Mas os carros rareavam, e os que vinham agora tinham mais medo, sequer paravam no farol. Ficar ali não iria ajudar. Juntou com carinho as rosas dentro do paletó e respirou fundo para encarar os sete quilômetros que o separavam de casa.

O chuvisco engrossou, e o obrigou a abrigar-se no toldo de uma papelaria. Não suportou ficar ali, pensando que bem poderia quebrar a vitrine e livrar o peso da consciência. Não era do seu feitio.

Já estava ensopado, e passou em frente ao último boteco aberto antes da ponte. Hesitou em entrar, gastar os parcos cinco reais que ganhara naquele dia mirrado para afogar as máguas na cana. Não podia. Seria muito desrespeito com a Rita, que o esperava acordada, e iria levantar cedo para levar Leninha à escola.

Passando sobre o mal cheiro do rio, encostou no parapeito e pensou se não seria mais fácil cair dali e acabar com tudo de uma vez. Também não fazia o seu tipo. Mas poderia pelo menos jogar as flores, arremessá-las bem longe, espalhar pétalas escarlate naquele cinza mórbido e vingar-se de sua condição miserável.

Com a mão direita, segurou firme nos dezoito pequenos caules. Esticou os braços para trás, enrijeceu os músculos e mirou em um pneu que boiava ao longe. Não deu.

Naquela noite, pela primeira vez em seus trinta e três anos, Rita recebeu flores.

domingo, 26 de junho de 2005

Lápis e chocolate

Na frente da prateleira de chocolates, surgiu do nada a menina com uma caixinha vermelha nas mãos. "Tio, você compra essa caixa de lápis de cor pra mim?" Automaticamente, a cara de tristeza e a quase mentira de sempre: "não tenho..."

Magrinha, chinelo nos dedos e uma cara de ter lá pelos seus sete ou oito anos. Roupas simples, desbotadas e limpas. Não se parecia com as crianças que o costumavam parar para pedir esmola.

Paralisou-se quando se deu conta da burrada. Não comprava bala no farol, não dava dinheiro, e até comida já pediram e ele negou. Mas o quê de mais nobre haveria uma criança de pedir que não fosse uma caixa de lápis de cor?

Sentiu-se pesado, gordo, asqueroso dentro de seu tênis de marca e seu cartão de crédito no bolso. Saiu desesperado em busca da menina, e a encontrou já na fila do caixa. Estava ao lado de um senhor de calças sujas, camiseta amarrotada e voz serena: "Tudo bem, vai. Eu compro pra você".

A menina, timidamente, acrescentou ao presente um apontador e uma borracha. Ele, envergonhado, voltou à gôndola dos quitutes e levou mais duas barras pesadas de chocolate, na esperança de acalmarem-lhe os nervos.

domingo, 12 de junho de 2005

Onde ainda há sono

Foto: Iberê Thenório
Praia do Sono, no sul de Paraty Posted by Hello

Uma hora e meia de trilhas íngremes separa a Praia do Sono do triste destino de seus vizinhos Laranjeiras e Trindade.

Foi um pescador quem me falou: o Sono é o que foi há pouco tempo todo aquele canto de Paraty. Areias tranqüilas, chapéus-de-sol deixando folhas sobre o mar, ranchos de madeira à beira da praia. Sem ruas nem luz elétrica.

Só resistiram as praias escondidas. Do outro lado do morro, exemplos opostos de destruição. Em Laranjeiras, são os aterros para os barcos aportarem, as guaritas, as cercas intimidadoras. Em Trindade, o crescimento desorganizado, as ruas cheias, a orla tomada por pousadas e campings montados às pressas.

Mas o que se vai fazer contra a horda de desesperados por um lazerzinho à beira-mar nos feriados prolongados? E a arrecadação de impostos das cidades praianas? E os caiçaras desempregados?

As soluções sempre apontam contra a natureza, cuja única defesa são os ângulos agudos, ainda intransponíveis, da serra do mar.

domingo, 21 de novembro de 2004

Fiat Lux!

Sempre fui contra blogs. Para que serve esse negocinho em que as pessoas ficam escrevendo para nada, onde outras, que têm menos ainda o que fazer, vão lá comentar e inflar o ego do autor que, disputando com outros amigos blogueiros, quer ver seus numerinhos estre parênteses inchando desgovernadamente?

Hoje, contudo, um sentimento de inveja sobrepujou o meu preconceito. Entrei no blog da Érica e percebi o quanto ela está escrevendo bem. Postando quase uma vez por dia, é nítida a diferença entre os seus textos de três anos atrás, quando nos conhecemos.

Eu, bicho do mato, de escola pública, com um pé esquerdo nas ciências exatas, entrei para a faculdade de jornalismo sem saber escrever muito bem. Até que consigo enganar um pouco, às vezes, mas em três anos de faculdade nunca fiz um trabalho que me satisfizesse literariamente. Melhorei consideravelmente depois de dois anos dando aulas de redação, mas só a técnica. A estética continua cruazinha.

É por isso que começo este blog. Não sei se vou ter tempo, saco, ou inveja da Érica o suficiente para manter um blog ativo e alimentado por tantos anos como o dela. Mas a forma como a danadinha anda se virando bem com as palavras me estimula, e muito.

Por enquanto, não vou espalhar pra ninguém. Quem sabe quando ele estiver mais gordinho, já sanado das tosqueiras literárias de um velho principiante, alguém o encontre e goste. Vamuvê.